Viagem pelo Tibete, de Kathmandu a Lhasa, na rota de Shangri-La

Saio do aeroporto sob um ar abafado, envolto na confusão de gente e bagagens a entrar nos táxis, tento vislumbrar alguma placa com o meu nome. Enquanto aguardo que me venham buscar, “gentis” taxistas oferecem-se para me transportarem para o centro da cidade. Aguardo impaciente até que finalmente chega a minha boleia, o Prashant Aryal, um jovem nepalês, e fico a saber o motivo do seu atraso: o trânsito estava ainda mais caótico que o habitual pois um incêndio estava a consumir a Pilgrims Book House, livraria emblemática situada bem no centro de KATHMANDU.

Cerca de dois meses antes (Março 2013) recebi uma newsletter com anúncios de várias viagens. Uma delas chamou-me a atenção, a viagem de Kathmandu a Lhasa, a cidade do Dalai Lama. O oriente, Nepal, Tibet, Himalaias, campo base do Evereste… estavam reunidos vários ingredientes que sempre me despertaram o interesse, e todos numa única viagem.

Com cerca de 1.700.000 habitantes, Kathmandu é frenética. O trânsito desregrado é caótico, o cheiro a gasolina entranha-se no nariz, os condutores buzinam constantemente, as motas infestam a cidade. Bem no centro deste caos um local distingue-se pela sua tranquilidade, o Garden of Dreams, belos jardins cuidadosamente tratados onde é possível relaxar.

Kathmandu

Kathmandu

Cheguei um dia antes dos elementos que compunham o grupo que iria realizar a viagem, e assim tive tempo para deambular por Thamel, a zona mais turística onde abundam as lojas de comércio, a Durbar Square, uma espécie de centro histórico, o “Garden of Dreams “ e a ainda genuína cidade de Baktapur…

Kathmandu

Kathmandu

 

Kathmandu

Kathmandu

Reunidos os restantes membros da viagem, nove no total, realizamos um “tour” pelas zonas mais turísticas de Kathmandu: A zona mais antiga da cidade, a Praça Patan Durbar; a stupa de Buddhanath; Pashupatinath, o mais famoso templo hindu do Nepal; e Swayambhunath, mais conhecido por “templo dos macacos” de onde se observa toda a cidade.

Kathmandu - Praça Patan

Kathmandu – Praça Patan

Cerimónia funebre - Kathmandu

Cerimónia funebre – Kathmandu

Monge em Kathmandu

Monge em Kathmandu

Bhaktapur

Bhaktapur

Bhktapur

Bhktapur

No dia seguinte saímos cedo em direcção ao TIBETE.

O regime comunista chinês liderado por Mao Tse Tung invadiu o Tibete em 1950, sob o pretexto de “libertar o país do imperialismo inglês”.
O resultado da mão-de-ferro chinesa são os mais de 100.000 tibetanos refugiados pelo mundo devido à opressão religiosa, fim da liberdade política, e aprisionamento e assassinato de civis em massa. Estima-se que 1 milhão de tibetanos tenham morrido às mãos do exército chinês. (fonte: wikipedia)

Após cerca de três horas, chegamos a Kodari, pequena povoação na fronteira com o Tibete. Na alfândega dirigimo-nos para a ponte sobre o rio Bhote Kosi que separa o Nepal do Tibete. Juntamo-nos à imensa fila de pessoas que aguardavam para entrar no Tibete, muitos deles carregando pesadas cargas para expedições de montanhismo. Aqui quando me preparava para fazer algumas imagens, de imediato fui advertido por um soldado chinês que tal não era permitido. Percebi que a hospitalidade nepalesa ia dar lugar à “brutalidade chinesa”.

Kodari: fronteira com Tibete

Kodari: fronteira com Tibete

Após cruzarmos a ponte entramos em território “chinês”, e foi-nos apresentada a nossa guia, uma tibetana que vive em Lhasa. Além de guia (turística), ia ser também a nossa ligação (obrigatória) com as autoridades chinesas uma vez que não é permitida a entrada no Tibete sem um guia “aprovado” pelos chineses.

Durante o “check-in” do nosso grupo mantém-se um problema com o passaporte de um dos elementos, que pensávamos ter sido já resolvido na embaixada chinesa em Kathmandu, sendo-lhe vedada a entrada em território “chinês”. Seguiram-se contactos para agências de viagens, embaixadas, diplomatas… O tempo passava e em breve a alfândega ia fechar, o stress aumentava. Se não conseguíssemos entrar neste dia no Tibete, apenas na manhã seguinte o poderíamos fazer. Ia-mos perder um dia de viagem… Além disso onde iriamos pernoitar…?

Cerca de quatro horas depois nada feito, as autoridades chinesas estavam intransigentes e não permitiam a entrada deste elemento. Uma a uma, as máquinas de check-in iam sendo cobertas com lonas, via-mos a alfândega a encerrar… Tivemos então que decidir em função da maioria que foi seguir sem este elemento, que não teve outra alternativa senão regressar a Kathmandu.

Já com a alfândega encerrada, e após alguma insistência nossa, o responsável acedeu à realização de um “check-in” manual aos restantes elementos do grupo. As bagagens foram abertas e revistadas minuciosamente, inclusive os livros, não é permitida a entrada de livros com menções ou fotografias do Dalai Lama.

Finalmente entrávamos nos veículos todo-terreno que nos iriam transportar ao longo dos próximos 10 dias até Lhasa. Apenas percorrido cerca de 1km para lá da fronteira, logo tivemos de parar num posto de controlo e apresentar aos militares passaportes e vistos. Este seria um ritual a repetir várias vezes por dia ao longo dos próximos dias.

Anoitecia rapidamente e as 4 horas perdidas na alfândega fizeram com que fosse impossível ver as inúmeras quedas de água que se despenhavam ao longo do profundo vale em que seguíamos. Até Nyalam, situada a 3750m de altitude, tivemos de parar em vários postos de controlo. Começava a pensar que iam ser 10 longos dias…

Seguiu-se uma noite mal dormida, devido à altitude, num quarto de “hotel” onde abundavam borboletas da traça! Definitivamente iam ser 10 longos dias!

No dia seguinte partimos em direção a Tingri. Após percorremos uma das subidas com maior desnível do mundo (2300m a 5129m altitude) atingimos o Tong La Pass, onde a vista sobre a cordilheira dos Himalayas era imensa. Tingri, pequena povoação em pleno planalto tibetano a 4300m altitude, faz lembrar as pequenas cidades do “far West”: as casas ladeiam a estrada principal onde deambulam manadas de yaks, algum pequeno comércio e crianças que brincam felizes, apesar do pouco que têm.

Cordilheira dos Himalaias desde o Tibete

Cordilheira dos Himalaias desde o Tibete

Tibete

Tibete

Crianças em Tingri

Crianças em Tingri

Vistas desde Tingri

Vistas desde Tingri

Tingri

Tingri

Tingri

Tingri

Às 5 da madrugada partimos em direcção a sul, o objectivo era ver o campo base do Monte Evereste. A noite vai dando lugar ao dia e o Shisha Pangma, uma das 14 montanhas com mais de 8000 metros, apresenta-se em tons laranja, prosseguimos, vamo-nos cruzando com alguns nómadas, a paisagem é árida, finalmente o gigante Evereste começa a mostrar parte da sua face norte. Percorremos o vale do Dzakar Chu e chegamos ao famoso mosteiro de Rongbuk a 4980m altitude, com o Evereste como pano de fundo. Poucos quilómetros depois, seguimos a pé rumo ao campo base (tibetano), ponto de partida das expedições que vão tentar alcançar o tecto do mundo. São cerca de 4km, no entanto para meu espanto também é possível realizar o percurso de camioneta pois existe uma estrada em terra batida… Logo no início do trajecto fizemos um pequeno desvio até umas casas moldadas na encosta da montanha. Era uma eremita habitada por um monge que nos convidou a visitar o seu local de oração. Descemos por um alçapão para uma espécie de gruta, as paredes eram negras, havia algumas velas acesas e um pequeno santuário. O monge acendeu algumas barras de incenso e a nosso pedido algumas velas, foi um momento intenso. Continuamos o percurso sob um sol escaldante e deparamo-nos com uma tenda no meio do nada com alguns militares chineses. Uma cancela atravessava-se no caminho mas o campo base ainda estava longe. Os meus colegas subiram a uma pequena elevação de onde se avistava melhor, eu teimava em lá chegar, ultrapassei a cancela e continuei pelo estradão. Ouço a voz de alguém mas continuo. A voz fica cada vez mais alta, olho para trás e vejo um soldado chinês a correr atrás de mim. Paro de imediato. “Your permit!” grita ele. Tento explicar que apenas quero ver de perto o campo base. “Your permit!”, ao que respondo “No permit”. Tenho que voltar para trás, só quem paga um “permit” pode chegar ao campo base, tenho que me contentar com as vistas daqui.

Monte Shisha Pangma ao nascer do dia

Monte Shisha Pangma ao nascer do dia

Monte Evereste

Monte Evereste

Regressamos aos veículos e seguiram-se algumas horas sempre em direcção a norte rumo a Sakya. Na manhã seguinte vimos o mosteiro, foi estranho ver um jovem monge a falar ao telemóvel! Infelizmente neste e outros mosteiros não era permitido obter qualquer tipo de imagem do interior. Os dias foram-se sucedendo. O acesso à Internet era extremamente condicionado, usar um telefone fixo para o exterior era impossível, resta apenas o telemóvel. A nossa guia era simpática e prestável, mas falar-lhe em temas relacionados com a presença chinesa no Tibete eram assunto tabu. Continuamos por Shigatse, a segunda maior cidade do Tibete. No mosteiro Tashilhunpo centenas de pessoas realizam a “kora”, ritual que se caracteriza por peregrinos a circundarem o mosteiro no sentido dos ponteiros do relógio enquanto rezam. Seguiu-se Gyantse, destacando-se apenas o seu mosteiro, o Pelkor, onde se situa a maior “stupa” do Tibete com as suas 108 capelas.

Peregrinos no Mosteiro de Sakya

Peregrinos no Mosteiro de Sakya

Peregrinos no Mosteiro Tashilhunpo

Peregrinos no Mosteiro Tashilhunpo

Peregrino com uma roda de oração

Peregrino com uma roda de oração

Stupa no Mosteiro Pelkor

Stupa no Mosteiro Pelkor

Monges no Mosteiro Pelkor

Monges no Mosteiro Pelkor

Sempre em direcção a Lhasa, duas montanhas com mais de 6000 metros interrompem o planalto. Aqui é possível ver dois glaciares muito perto da estrada, o Karo La e o Kamba La, depois entramos nas margens do lago Yamdrok onde pastam centenas de ovelhas. O azul turquesa das suas águas contrasta com as nuvens espessas no céu criando uma imagem fantástica.

Tibete

Tibete

As planicies dão lugar às montanhas

As planicies dão lugar às montanhas

Nas margens do Lago Yamdrok

Nas margens do Lago Yamdrok

Aproximamo-nos de Lhasa, ao longe já era possível ver o palácio Potala. À medida que entramos na cidade a desilusão vai aumentando, depararmo-nos com uma cidade completamente descaracterizada. Nos arredores a construção em altura massifica-se, no centro há largas avenidas e muito trânsito, ninguém fala inglês… Mas o que mais se salienta são os inúmeros postos de polícia e militares chineses que estão em toda a parte. Aqui é possível constatar o que era mais que evidente, a Região Autónoma do Tibete só é autónoma no nome.

Palácio Potala em Lhasa

Palácio Potala em Lhasa

Lhasa

Lhasa

Em Lhasa terminou a viagem com a visita ao centro histórico, onde uma vez mais peregrinos realizam a “kora”; mosteiro Sera; templo Jokhang; Norbulinka (palácio de Verão do Dalai Lama) e o imponente palácio Potala onde habitava o Dalai Lama no inverno.

Palacio de Verão do Dalai Lama

Palácio de Verão do Dalai Lama

Centro historico de Lhasa

Centro histórico de Lhasa

Um ano passado, ao escrever estas linhas, relembro os planaltos tibetanos, as suas gentes, humildes e sempre dedicadas à oração, que vivem com muito pouco, no entanto de sorriso sempre presente, os mosteiros repletos de peregrinos, os monges… Relembro Kathmandu, caótica mas acolhedora, talvez o sitio que mais gostei da viagem e ao qual gostava de regressar, mas agora há que ir sonhando com a próxima.

Texto e Vídeo: Alcino Sousa
 

Algumas informações úteis:

Embaixada: existe embaixada chinesa em Lisboa, mas é uma burocracia complicada, pois, além dos vistos, é necessário ter um guia nomeado pelos chineses. Como tal, recomendamos que estas formalidades sejam entregues a uma agência.

Onde ficar: Em Kathmandu há muita oferta em Thamel; o Booking é uma boa solução para encontrar alojamento. No Tibete as possibilidades de escolha não são muitas.

Há que ter algum cuidado com o efeito da altitude que se faz sentir bastante.

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